Lily em 5 atos - Uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher
Mas, a história nos mostra que somos guerreiras e que, apesar dos obstáculos, não desistimos de nossa longa e bem sucedida jornada em direção a um futuro de respeito e igualdade de direitos. Uma história de conquistas protagonizada por todas nós, Mulheres-Maravilha (ou seríamos Maravilhosas?) cujos super poderes continuam a intrigar até mesmo os mais sabidos.
Por falar em mulheres maravilhosas e cheias de atitude, apresento-lhes Lily, nossa personagem cuja história vai muito além do dia 08 de março.
Era 08 de março. Lily passou o dia mobilizada com os preparativos para a comemoração do seu Dia Internacional da Mulher. “É hoje!”, suspirava ela excitada ao contar as horas para o encontro que teria com Godofredo, seu namorado de longa data, carinhosamente chamado de Godo.
Lily já havia caminhado alguns metros do quarto até o banheiro e do banheiro de volta ao quarto, pois interrompia com freqüência o que estivesse fazendo para vislumbrar o esplendor da noite, ali mesmo, sobre a cama, naquele simulacro de seu próprio corpo que ganhava vida na roupa estendida, nas jóias e bolsa sustentadas por braços imaginários e nas sandálias ao chão. Era a última etapa de um dia de folga todo dedicado às unhas, ao corpo e aos cabelos. Sofrera, horas antes, com depilação de pernas, virilha, axilas, buço e sobrancelhas nas mãos da melhor e mais temida especialista na técnica: senhora Marvaditz. Já em casa, os cuidados continuariam no banho demorado (Magda é do tipo “verde” e segue à risca as recomendações da ONU para o consumo consciente da água, mas o dia era especial e permitia desperdício). O pacote completo incluiria, ainda, maquiagem impecável, perfume francês e roupa íntima desconfortável e caríssima, é claro.
Quanto a Godo - bem como todos os outros habitantes do planeta Y – o processo seria menos árduo: banho com sabonete qualquer, xampu anti-queda ou anti-caspa, duas borrifadas de perfume e indumentária escolhida sem muita hesitação e que, certamente, não seria tão cara quanto qualquer uma das peças recém adquiridas por Lily.
Lily está pronta e à espera de Godo. Com pontualidade brasileira – 20 minutos de atraso - o interfone toca. Ela atende e se faz de desentendida: “quem é?”. O coração de Lily bate forte e acelerado ao ouvir Godo. No elevador espelhado rumo à felicidade, a incansável Lily aproveita aqueles dois minutos entre o primeiro andar e o térreo para o retoque final. Mexe e remexe, faz caras e bocas, ri, ajeita o vestido, joga os cabelos de um lado para o outro, estabelece um mini diálogo com ela mesma e, acreditem, ensaia um desfile nos poucos metros quadrados disponíveis.
O bip soa. O T se apaga. Chegou.
Godo está lindo e impecável aos olhos da dedicada Lily que ao se aproximar, surpreende-se com a total ausência de emoção do jovem parceiro que nada esboça ao vê-la dressed to kill – a não ser um “oi, querida, tudo bem?”, seguido de beijo. Godo não lhe abriu sequer a porta do carro! O pós-contemporâneo regido aos bons costumes das redes sociais virtuais parece ter esquecido as boas maneiras do mundo real.
No salto – literalmente – Lily, consciente do inesperado incômodo, transgride e não perde a serenidade, tardiamente adquirida à custa de inúmeros e muitos, digamos,‘espontâneos’ episódios de tpm. No local previamente sugerido e reservado por ela, jantarzinho à luz de velas e papo nada romântico. Diante dos encantos de Lily – reconhecidos por olhares alheios mais atentos e merecedores de tal recompensa - o sujeitinho não manifestou nenhum ritual de conquista (qualquer um daqueles obrigatórios, sabem?) como se já soubesse do sucesso da caça sem ao menos sair para caçar (Onde já se viu?). Fingindo dar atenção ao tema que era proferido, Lily arquitetava sua elegante saída do recinto. Desculpou-se por interromper o incessante monólogo, disse ir ao toalete, levantou-se e nunca mais voltou.
Já na rua e sem destino, Lily caminhava acelerada e feliz ao lembrar-se de quem ela realmente era. A cada passada, vinham à mente flashes daquela Lily extrovertida, ousada, cheia de personalidade e atitude, qualidades que, um dia, foram sua marca registrada. Mas aí, involuntariamente, os passos diminuem e o semblante muda. Vão surgindo marcas de uma expressão triste que, até então, estivera escondida, como naquele retrato no qual nem mais nos reconhecemos. Talvez porque nos achemos feios ou tristes. Talvez porque revele muito de nossa alma.
Agora, são outras as lembranças que surgem lá dentro, na tela do inexorável HD mental de Lily. Lembranças dos dias em que Godo bebeu além da conta e a maltratou. De todos os dias em que nunca recebera um único elegio de Godo. Do dia em que preferiu não ver que Godo a traía com uma amiga do trabalho dele. Das vezes em que Godo a fez chorar. Lembrou-se, também, que a relação sempre estivera fadada ao fracasso, mas que preferia deletar as mágoas, os mal-entendidos, o dito pelo que não deveria ter sido dito, as decisões erradas, os caminhos extraviados. Preferia dar mais uma chance ao amor a ficar sozinha. Lily acreditava amar Godo mais do que a si mesma.
Lily escolheu ser feliz e para tal não mais negociaria seu amor. Estava finalmente livre.
Que o dia internacional da mulher nos faça lembrar, todos os dias, de quem somos realmente: mulheres maravilhosas. Mulheres com M maiúsculo que embora dividam as contas com o parceiro valorizam a importância do respeito e apreciam a delicadeza, sempre.
Feliz dia internacional da mulher!

























