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J'ai commencé ma vie comme je la finirai sans doute: au milieu des livres. Jean-Paul Sartre (Les Mots)

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Dentro de nós há algo que não tem nome, essa coisa é o que somos. José Saramago

Quinta-feira, Outubro 19, 2006

Mesmo o leito seco de um rio ainda guarda o seu nome






Mesmo o leito seco de um rio ainda guarda o seu nome
Provérbio africano


Quem nunca teve aquele sentimento inquietante de um dia experimentar o sábio, misterioso e contraditório continente africano? Sábio, porque a história da humanidade começou lá. Misterioso, porque a cada dia, uma revelação arqueológica nos ajuda a entender quem somos, e contraditório porque é pródigo em ouro, diamante, petróleo e diversidade cultural, entretanto, a maior parte do seu povo vive abaixo da linha da pobreza.Bem verdade que o imaginário ocidental tem interpretações preconceituosas e, muitas das vezes, equivocadas sobre a África. Incorporamos, através da mídia e dos livros didáticos, o sofrimento à distância e a esperança de que, a cada natal, os milhões de dólares arrecadados com aquele bombástico sucesso de estrelas internacionais que decidem se juntar em prol de uma causa qualquer (e na África, causa é o que não falta), consigam, talvez, diminuir os números de abikus (crianças nascidas para morrer, no dialeto iorubá), ou quem sabe, apontar dados menos devastadores.Mas, relativismo cultural a parte, é duro demais saber que o vírus da AIDS mata, por dia, mais de 6.000 pessoas na África , e que, em alguns países, homens, mulheres e crianças enfrentam filas quilométricas por um galão de água (um cidadão americano consome em média 600 litros de água por dia, O europeu, 300 e o africano entre 20 e 30 litros por dia!), e que, muito ‘naturalmente’, associamos o continente às imagens distorcidas e estereotipadas que nos chegam de desertificação, corrupção, guerras étnicas intermináveis, genocídio, anarquia, estupro, AIDS, fome e pobreza endêmica.
Eis que chegam mulheres e meninas de todas as idades, elegantes e soberanas, desfilando na passarela de terra ou asfalto da vida. Já nas primeiras horas do dia, a criatividade impera em estampas, vestidos e nas capulanas que, além de carregarem alimentos e filhos, exaltam estilos inusitados.
Paradoxalmente, emergem e sobrevivem às tormentas com uma miríade de cores tão mais vivas que a própria vida. Talvez, a intensidade das cores manifeste a eterna e sublime luta contra o mal estarrecedor. Como se quisessem aclarar que já são vitoriosos apesar das adversidades.

O ocidente já tenta, há muito, copiar essa moda exuberante e espontânea da África. Mas, a moda lá é social e complexa demais para uma reprodução do lado de cá. O que vemos lá não é uma ou outra tendência para cada estação do ano. É a moda inspirada na vida, no sofrimento e na eterna esperança de que, um dia, Mama África encare um outro destino, sem preconceito, generalizações e esquecimento.


Fontes:

http://news.bbc.co.uk/hi/english/static/in_depth/africa/2000/aids_in_africa/default.stm

http://www.africanow.org/

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