Ah, se eu pudesse...
Serendipidade na ciência. Estavam lá os médicos realizando um procedimento cirúrgico no cérebro de um paciente que já havia tentado de tudo para emagrecer.
Em nada adiantavam as dietas rigorosas, as supersticiosas, as drogas medicamentosas, as ervas espirituosas, a cirurgia bariátrica, nem mesmo a malhação enfática. Nada o faria emagrecer.
Sua última esperança seria, então, chegar a algum lugar do cérebro e, ali, desativar a potente e, até então desconhecida, “bomba-relógio”. A iniciativa era experimental e era tudo o que lhe restava.
Não é que, fuxicando ali pelo hipotálamo, que além de outras funções está relacionado à fome, os cientistas descobriram um pontinho que quando estimulado com eletrodos traz à tona memórias antigas?
A cada estímulo, uma lembrança. Ao lembrar-se de uma festinha há muitos anos, o paciente detalhou cores, roupas e pessoas. Era como se tudo tivesse acontecido há 2 horas. O paciente continua gordo e a engordar, mas, agora, ele vai conseguir se lembrar...
A comunidade científica já comera a façanha e vislumbra uma resposta de cura para a doença de Alzheimer. Eu, daqui, já imagino clínicas especializadas em ‘recuperação de memória’. “Desconto de 10% se o pagamento for à vista”, anuncia a conhecida e badalada Memory Lane...
Deitamos numa espécie de divã, com música ambiente e, logo, começamos a sessão.
Um choquinho, e o que você era há 20 anos surge nitidamente e só lhe traz alegrias. Mas, de repente, a corrente aumenta e, involuntariamente, aquele encontro frustrado que você tanto queria esquecer, surge na tela do seu ainda inexorável HD.
Será que realmente queremos nos lembrar de tudo? Será que, às vezes, somos protegidos pela falta de memória? E se houvesse uma maneira de esquecer o que não queremos lembrar?
Ah, se eu pudesse deletar do meu incontrolável e descontrolado HD o dia que tive a absoluta certeza de que minha vozinha era esquizofrênica... Ainda lembro como se fosse hoje.
Ou aquela manhã quando soube ao telefone que a mesma vozinha havia morrido.
Ou ainda aquelas outras manhãs que, também ao telefone, soube que a vó Maninha, o Luiz, a dona Neuza, o Lincoln, não mais aqui estariam.
Ah, se eu pudesse deletar todas as mágoas, os mal-entendidos, o dito pelo que não deveria ter sido dito, as decisões erradas e os caminhos extraviados.
Ah, se eu pudesse...
Mas, talvez, as dores da existência nos ajudem a ponderar o viver e, assim, amadurecemos e chegamos, aos pouquinhos, perto da tal sabedoria. Assim pensava Nietzsche. Assim sofro eu.
Em nada adiantavam as dietas rigorosas, as supersticiosas, as drogas medicamentosas, as ervas espirituosas, a cirurgia bariátrica, nem mesmo a malhação enfática. Nada o faria emagrecer.
Sua última esperança seria, então, chegar a algum lugar do cérebro e, ali, desativar a potente e, até então desconhecida, “bomba-relógio”. A iniciativa era experimental e era tudo o que lhe restava.
Não é que, fuxicando ali pelo hipotálamo, que além de outras funções está relacionado à fome, os cientistas descobriram um pontinho que quando estimulado com eletrodos traz à tona memórias antigas?
A cada estímulo, uma lembrança. Ao lembrar-se de uma festinha há muitos anos, o paciente detalhou cores, roupas e pessoas. Era como se tudo tivesse acontecido há 2 horas. O paciente continua gordo e a engordar, mas, agora, ele vai conseguir se lembrar...
A comunidade científica já comera a façanha e vislumbra uma resposta de cura para a doença de Alzheimer. Eu, daqui, já imagino clínicas especializadas em ‘recuperação de memória’. “Desconto de 10% se o pagamento for à vista”, anuncia a conhecida e badalada Memory Lane...
Deitamos numa espécie de divã, com música ambiente e, logo, começamos a sessão.
Um choquinho, e o que você era há 20 anos surge nitidamente e só lhe traz alegrias. Mas, de repente, a corrente aumenta e, involuntariamente, aquele encontro frustrado que você tanto queria esquecer, surge na tela do seu ainda inexorável HD.
Será que realmente queremos nos lembrar de tudo? Será que, às vezes, somos protegidos pela falta de memória? E se houvesse uma maneira de esquecer o que não queremos lembrar?
Ah, se eu pudesse deletar do meu incontrolável e descontrolado HD o dia que tive a absoluta certeza de que minha vozinha era esquizofrênica... Ainda lembro como se fosse hoje.
Ou aquela manhã quando soube ao telefone que a mesma vozinha havia morrido.
Ou ainda aquelas outras manhãs que, também ao telefone, soube que a vó Maninha, o Luiz, a dona Neuza, o Lincoln, não mais aqui estariam.
Ah, se eu pudesse deletar todas as mágoas, os mal-entendidos, o dito pelo que não deveria ter sido dito, as decisões erradas e os caminhos extraviados.
Ah, se eu pudesse...
Mas, talvez, as dores da existência nos ajudem a ponderar o viver e, assim, amadurecemos e chegamos, aos pouquinhos, perto da tal sabedoria. Assim pensava Nietzsche. Assim sofro eu.


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