Reencontrei Chico
Era dezembro de 1988. Chico Mendes, líder sindicalista e protetor da floresta amazônica, foi brutalmente assassinado em Xapuri, no Acre, sua terra natal. Eu tinha 15 anos de idade e aquela fora a mais triste notícia da minha vida.
A causa verde era a minha causa de vida. Estava sempre antenada aos movimentos graças aos documentários exibidos pela TV educativa e produzidos pela BBC. David Attenborough era um querido e já íntimo. Além do britânico, eu era seguidora assídua de produções brasileiras como o precursor Baleia Verde, com Sydney Rezende e Terra Azul com a pra sempre expedicionária Paula Saldanha. Só de ver as repentinas aparições do Rainbow Warrior - navio símbolo do Greenpeace - em corajosos embates e emocionantes campanhas contra a caça indiscriminada de baleias e focas nos lugares mais remotos do planeta, meu coração disparava. Eu queria estar lá, afinal, eu era uma das maiores ativistas ecológicas do mundo! Eu tinha 15 anos e sonhava em ser membro do Greenpeace.
Em minhas investidas particulares, saía às ruas e agia, feito gente grande, ao tomar nota de donos que aprisonavam silvestres e maltratavam bichinhos indefesos. No telefone, denunciava tudo que estivesse irregular aos órgãos. Orgulhava-me da minha humilde participação no contexto You Can Save the World. Colecionava reportagens, escrevia para meus ídolos verdes, daqui e de lá, contava os dias para a chegada ao Rio do Rainbow Warrior, sofria com as imagens de matanças de bebê-focas, baleias Jubartes, gorilas das montanhas, tartarugas marinhas e chorava com tamanha impotência.
Fazia, então, o que estava ao meu alcance: denunciar. A lista de animais sofridos comportava as mais diversas espécies, desde um vira-lata com lepra até um macaco-prego doente e acorrentado. Este último me deu trabalho. O pequeno silvestre nativo da mata atlântica se chamava Tico, vivia acorrentado numa oficina mecânica e era prisioneiro de um sistema carcerário precário e insalubre. Quem poderia salvá-lo? EU.
Investiguei, disfarcei, me aproximei, testemunhei, provei, acusei, denunciei. Fui ameaçada pelo dono da oficina, mas de nada adiantou porque quando somos jovens, nada tememos. Aos meus olhos arregalados que da sacada de um apartamento no sexto andar tudo viam, a cena fora cinematográfica. O processo foi longo e exigiu paciência para o gratificante desfecho. Às 16h45 daquela tarde, entrou em ação o IBAMA. Tico foi levado às pressas para o Centro de Triagem e recuperação na Gávea. Tinha úlcera e dentes cariados, mas sobreviveria. Já, o dono, foi multado e ficou indignado!
De volta ao propósito inicial desta postagem, Chico Mendes fora a minha maior motivação. Estivesse ele em Xapuri confrontando os temidos ‘Darlis da Silva’ ou em Washington antecipando os riscos da destruição da floresta mãe, eu certamente saberia.
Chico, sua mulher Ilzamar, os pequeninos Elenira e Sandino e o amigo Gumercindo eram, pra mim, protagonistas de uma novela real e com final feliz. Sim, porque quando somos jovens, ainda acreditamos que pra tudo deve haver um início, meio e fim, e que este último, deverá ser, necessariamente, feliz. A floresta seria, SIM, salva dos vilões e o bem, ah... esse aí era predestinado a vencer o mal sob quaisquer circunstâncias.
Mas, aí, em 22 de dezembro de 1988, um tiro tirou a vida de Chico. Foi à noite e lembro como se tivesse sido ontem. Recusava-me a acreditar no que via e ouvia pelo jornal nacional.
...
Passaram-se vinte anos e durante todo esse tempo, guardei Chico, bem guardadinho, num lugar onde ficam os inesquecíveis, os memoráveis, os inigualáveis. Com medo, evitei reencontrar Chico.
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Até que fui convidada por uma amiga querida a ir à abertura da exposição “Vinte anos sem Chico Mendes”, no museu do meio ambiente, aqui no Jardim Botânico, no Rio. Para o evento, sentia-me preparada emocionalmente para relembrar, afinal, o tempo e a distância fazem milagres. Era para ser um reencontro desprovido de grandes emoções. Atemporal, sem predicados e definições premeditadas.
...
Cheguei. Vi Elenira, filha de Chico e idealizadora do evento que mostra o legado do nosso líder maior. Um sorriso espontâneo em meus lábios traduzia a linda lembrança que tinha daquela pequena que, pela TV, descabelada e de cara emburrada diante das câmeras, estava sempre de mãos dadas com o pai. Elenira também tentou esquecer e, por quatorze anos, não quis saber de remexer. Até que uma carta de seu pai lhe chega às mãos com a seguinte mensagem:
“És a vanguarda da esperança, Elenira. Darás continuidade um dia à luta que seu pai não conseguiu vencer”.
Entrei e me familiarizei. Lá, comecei minha jornada rumo ao conhecido. Fotos, quadros, reportagens, entrevistas, prêmios, tudo exposto cronologicamente. Sabia de cor o que veria em seguida. Até que me deparo com a linda casinha azul de Chico. Vinte anos depois, o sonho realizado: a chance de ‘entrar’ na casa de Chico, ‘convidada’ por sua filha.
Fui pega desprevenida. Estavam lá objetos, pertences e um pedaçinho do homem Chico. Não pude conter as lágrimas que insistiam em cair, desobedientes, rompendo com todo e qualquer código pré-estabelecido. Experientes, elas exigiam o acerto de contas tardio com os últimos vinte anos. Ao deixá-las cair, não senti mais medo de reencontrar Chico.
“Se descesse um enviado dos céus e me garantisse que minha morte iria fortalecer nossa luta, até que valeria a pena".
Chico Mendes




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